sábado, 13 de outubro de 2012

Resiliência?



Este mês eu fui a um desfile no Hospital do Câncer, os modelos eram os próprios pacientes, e o objetivo era dar apoio aos novos pacientes em tratamento, partilhando as experiências de como lideram com a notícia, a doença, os efeitos colaterais do tratamento e tal. Amigos e parentes foram convidados para participar do Outubro Rosa.

Uma das moças que falou, começou pedindo desculpas se estava muito ofegante, mas que quimio era assim mesmo, a deixava meio cansada. Ela estava quase carequinha. E linda. Radiante. Não estava abatida nem nada, pelo contrário, estava feliz. Só de vê-la assim, já foi um tapa na minha cara, mas o que me marcou mesmo viria a seguir.

Ela disse: "Claro que a notícia te abala, todos nós sabemos que um dia vamos morrer; mas quando te dizem que você está com câncer, você sente como se tivessem te colocado um prazo de validade, onde está escrito: 'valido por x dias', daí você começa a ver o que importa de verdade, e passa a não dar importância àquelas coisas bobas que te aborreciam antes, passa a não ficar chateada com bobagem, pois isso é perda de tempo. Quanto a ter que tirar uma parte do seu corpo? Gente, não pensa que você  está perdendo algo, pensa apenas que aquilo é só uma coisa que não te serve mais, e está te fazendo mal, não presta mais pra você. No caso de uma mastectomia, por exemplo, claro que a mulher se abala, pode se sentir menos feminina e tal, mas olha, você só está tirando algo que não é bom mais para você. Você vai ficar careca? Aproveita a criatividade e abusa das cores, de lenços, de formas diferentes de usar, hoje eu sou muito mais criativa do que antes e, olha, cabelo cresce de novo".

Estas foram algumas de suas palavras, que podem não significar muita coisa para alguns, mas que fizeram todo o sentido para mim. Na hora comecei a aplicar a tudo que até então era relevante pra mim e ficou ecoando na minha mente: "está tudo bem, você não está perdendo nada, só está sendo tirado de você algo que não te serve mais, que não te faz mais bem".

Foi como se, de repente, alguém acendesse a luz pra mim, e eu conseguisse enxergar as coisas como são de verdade. Pode parecer tão obvio, ou mais-do-mesmo. Mas não. Para mim não soou como uma frase motivacional ou otimista; até porque, se tem algo que não faz me sentir melhor são pessoas otimistas demais, sinto um toque de mentira no ar, um toque de marketing barato, frases apenas politicamente corretas e vazias, entende? Ela não. Era a vida dela. Era o que ela viveu e ainda estava vivendo. Sem otimismos baratos, só uma verdade pura e simples. Aquilo me tocou, me fez perceber o quanto idiota eu estava sendo por ainda me angustiar por coisas tão pequenas. Não é nem racional se comparar uma situação de doença grave com probleminhas, mas a verdade do que ela falou foi tão forte, que seria insano não aplicar a minha vida. Me fez enxergar que sim, está tudo bem, e que realmente todas as coisas pelas quais eu ainda estava chorando não me faziam bem, e de fato, foi só eu tirar o olhar romântico que passei a ver claramente os problemas daquilo que eu jugava ser ideal. Também percebi que se não pude ir pela rota que eu tracei, é porque pode mesmo não ser a melhor para mim agora. Quem sabe mais tarde? Ou quem sabe nunca? Quem sabe o caminho alternativo se revele bem melhor?

Recentemente, eu li um texto onde duas pessoas conversavam. Uma havia conseguido tudo o que sonhou na vida e mesmo assim não era feliz. A outra tinha os mesmos sonhos, mas por percalços da vida não havia conseguido concretiza-los e acabou seguindo um outro rumo. Ao que me parece, esta segunda tinha bem mais brilho no olhar e amor à vida do que a primeira.

Nós fazemos diversos planos ao longo da vida, nem sempre conseguimos atingi-los e, quando as coisas não saem como deveriam, nos vemos obrigados a trabalhar com o que temos nas mãos no momento e muito possivelmente as coisas não estão como esperávamos... Mas quem garante que aquilo seria mesmo o melhor? Quem sabe deixaríamos de conhecer amigos incríveis que temos hoje? Quem poderíamos ter nos tornado se a realidade hoje fosse a que desejávamos?

Certamente nunca saberei as repostas destas questões, porque não dá pra viajar no tempo testando as opções, no entanto, sei que tenho orgulho do que sou e de quem fui. Tenho orgulho de cada aprendizado, até dos que foram na marra. Tenho orgulho de cada cicatriz, de cada marca, de cada tombo. Tenho orgulho de mim.

Não quer dizer que vou desistir dos meus projetos, apenas não preciso lamentar se não funcionar. Não significa que vou me deixar ser levada pelo vento. Não. Estou trilhando meu caminho, seguindo o que acredito e respeitando meus valores, os quais, por sinal, eu poderia não tê-los caso minha trajetória até aqui tivesse sido outra. O que quero dizer é que não é porque uma coisa ou outra (ou muitas) deram errado, que vou desistir e deixar de crer que no fim acontecerão.

Ou não. Podem não acontecer também. Mas o importante é quem eu serei lá na frente. É quem eu sou hoje. Não posso perder tempo me lamentando!


PS.: A todas a lindas e lindos que conheci no A. C. Camargo, meu muito obrigada por me mostrarem o valor da vida. E saibam que há um Deus maravilhoso cuidando de vocês! Beijo Grande!

PS2.: Cunha, amo você e estamos juntas nessa luta! Uma luta que entramos para vencer!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Bora, pega um café e vem comigo


"A gente gosta dele, mas não sabe porquê. Por que, no fundo, ele não merece".

Foi o que eu falei para um amigo a respeito de um professor nosso de dança. Esse professor é mega rígido em classe, mas eu amo suas aulas e quando ele sai daquele papel durão, é uma belezinha de lindo!

Também tive uma professora de matemática, na 8ª série, que conciliava seu cargo de professora com o de Policial Militar, e olha, ela não ia armada às aulas, mas era como se fosse! Sabe aquela pessoa tipo nunca-me-olhe-diretamente-nos-olhos? Pois! Ela era autoridade em sala. Suas aulas eram perfeitas, ela sabia do que estava falando, sabia ensinar, se propunha a dar aulas de reforço fora do horário dela e nem ganhava nada por isso. Era ótima profissional, só que exigia de nós tanto quanto. E apesar do seu jeitão, até meio bruta de ser, eu também a adorava.

Sempre me dei melhor com esse método de ensino mais puxado. Relax demais não funciona comigo.

A faculdade? Foi assim também. Escolhi uma cuja qual me identifiquei completamente. Nada fácil. Nada vinha de bandeja. Perfeito!

Profissionalmente, sou super analítica, gosto de desenvolver sempre responsabilidades novas e mais difíceis, quando fica fácil demais perco um pouco do brilho nos olhos.

Bom, como estou temporariamente-desempregada-e-falida, eu mesma faço o papel de Tiarinha (minha terapeuta)... Por que eu gosto tanto de gente/atividades assim? Pessoas que "não merecem" (beeeem entre aspas!) que eu goste delas, mas que eu gosto tanto? Atividades que demandam tanto esforço, mas que me realizam tanto?

E olha, eu pego um amor por esse povo que vocês não fazem ideia. Serio.

Até ontem eu pensava "Se eles me cobram mais, é porque se importam. Enquanto estivem exigindo mais, é porque acreditam que posso chegar lá". Contudo, este é um pensamento muito umbigocentrista. Até parece que a pessoa desenvolve o método x de trabalho por causa de mim... Ahãm... Senta lá Claúdia!

Quem me conhece um pouco sabe o quanto sou exigente, e tem sido assim desde antes de eu me entender por gente... Ou você acha normal uma criança de 2 ou 3 anos não gostar de ficar descalça e pedir para lavarem suas mãos porque ela se sujou de terra? Ou brincar o dia inteiro num quintal cheio de árvores e plantas e gatos e mesmo assim terminar o dia naaaaada parecida com as crianças dos comerciais de sabão em pó? Oi? Nem uma manchinha? Não.


Daí alguém diz, "não... mas alguém ensinou ela". Vai pesquisar as roupas dos meus primos para ver (meus tios que cuidavam de mim durante o dia), ótimo campo de pesquisa para os tira manchas.


Meus pais nunca foram de conferir lição de casa, ver cadernos, coisas do tipo. Mesmo assim sempre fui uma das melhores da turma. Para ser bem honesta, minha mãe esqueceu de me buscar na escola no meu primeiro dia de aula, sim.... na 1ª série (só um desabafo) hahahaha... daí que deu um tempinho, cansei de esperar e devo ter pensado "já tenho 6 anos minha gente, tenho que saber voltar para casa sozinha"... esperei o semáforo ficar verde, atravessei a avenida e rapidinho fui para casa. Minha mãe quase teve um treco!

Enfim, deu para entender mais ou menos o nível de exigência da pessoa desde antes da formação da terra né?
Pois bem, hoje eu diria a Tiarinha que só posso chegar a uma conclusão; na verdade mesmo, gosto de gente assim porque me desafia e é bom de vez em quando ter ao meu redor pessoas que exijam mais de mim do que eu mesma. Sei lá, acredito que o normal seria este, não? Um toque de cobrança alheia? Talvez por isso que eu me dê tão bem com essa didática, afinal chega a ser confortante ter alguém que cobre mais de mim do que eu. Por mais contraditório que possa parecer, esses mentores casca grossa, me fazem um bem danado! É um alívio para tanta autocobrança.

Será que Tiarinha concordaria? Ou será que ela iria me fazer enxergar outro ponto de vista?

Bora tomar uma café e pensar no assunto.